Ladrão que rouba ladrão…

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É o protagonista dos maiores mistérios da justiça portuguesa: em pelo menos dois casos, desconhece-se completamente o estado das investigações e, no entanto, Marco António Costa respira e negoceia poder no partido e no estado, há mais de duas décadas.

O seu percurso é igual a tantos outros: é o cacique perfeito, o exemplo acabado dos tumores malignos que minam os partidos políticos: “jota”, assessor na câmara, vereador, presidente concelhio, distrital, secretário de estado e vice do partido.

“Big Mac” assim é conhecido o homem que domina o aparelho do PSD de alto a baixo. Para alguns correligionários é um “azeiteiro”, mas é reconhecido que, na hora da verdade, todos têm medo de o confrontar.

Começou a sua “vida pública” em 1995 no célebre congresso do Coliseu pela mão de Luís Filipe Menezes. O rapaz ao lado do então candidato lavado em lágrimas, por ter tido a maior gafe partidária que há memória (“sulistas, elitistas e liberais”), era Marco António. E foi ele que limpou as lágrimas ao chefe, fechado duas horas na casa de banho dos bastidores do congresso.

Tinha montado uma verdadeira operação de assalto ao poder, no distrito do Porto, durante a sua militância da JSD. Criou as célebres “brigadas móveis” de fichas falsas denunciadas quando Rui Rio foi secretário-geral do PSD (na presidência de Marcelo Rebelo de Sousa) e tentou limpar os ficheiros.

Dezenas de fichas falsas foram inscritas na morada do então presidente da JSD/Porto, Sérgio Vieira (“consultor” e deputado do PSD). O expediente é o comum nestes assaltos às estruturas partidárias, por vezes numa lógica de troça, como o nome de alguns militantes: “Geraldão Dutra Pereira” (antigo central do FC Porto) e “Passos Dias Aguiar Mota” são alguns dos exemplos dos militantes fantasma das “brigadas móveis”. Como resultado, Marco António domina a Distrital do Porto entre 2001 e 2015.

Em 1997, seria vereador da Câmara Municipal de Valongo e foi aí que, segundo um antigo dirigente social-democrata, “começou a desenvolver e tecer a sua rede política” sempre secundado por dois nomes incontornáveis da sua carreira política: Agostinho Branquinho e Miguel Santos, deputado do PSD e que seria mais tarde “administrador” de várias empresas de Gaia, tuteladas por “Big Mac”.

Ainda em Valongo, controlou os dossiers mais importantes, como a concessão ruinosa (segundo o Tribunal de Contas) das águas a uma empresa francesa e a construção de apartamentos em barda que se verificou durante a sua vereação. Para Arnaldo Mamede, um promotor imobiliário, “Fernando Melo (então PCM) era decorativo. Diretamente ou por interpostas pessoas, o Marco é que sempre mandou em tudo”.

Este é o primeiro mistério judicial da personagem: é desconhecido o paradeiro de uma certidão emitida pelo Tribunal de Valongo, por ordem do procurador-geral adjunto no Tribunal da Relação do Porto, para a abertura de um inquérito criminal por eventuais crimes de corrupção. Essa certidão nunca apareceu nem no Tribunal de Valongo, nem na Relação, nem no Departamento de Investigação e Ação Penal do Porto. A responsável deste departamento concluiu que a certidão não existe em lado nenhum e, portanto, ficou inviabilizada a abertura do inquérito.

Entre 2005 e 2011 foi vereador de Menezes em Gaia, com a perspectiva de assumir a liderança da Câmara, logo que o presidente eleito saltasse para a liderança do partido, o que veio a acontecer em 2007.

Marco António distribuiu benesses pelos amigos, controlando a autarquia de lés-a-lés: Fernando Perpétua (quadro da Câmara de Valongo) foi para diretor municipal do urbanismo, Rogério Gomes (ex-diretor do Comércio do Porto) foi colocado nas Águas de Gaia e Virgílio Macedo (tesoureiro da Distrital do partido) tornou-se no revisor oficial de contas da autarquia (tendo faturado 117 Mil Euros, através da sua empresa unipessoal, até ter ido para deputado em 2011) e sucedeu a “Big Mac” na presidência da Distrital, com Miguel Santos a “vigiar”…

Este, foi nomeado administrador da Agência de Investimentos de Gaia (?) e presidente da “incubadora” de empresas iNOVA.Gaia.

Aliás, Miguel e Marco integraram a Grande Loja Legal de Portugal, por onde passaram o espião Jorge Silva Carvalho (que enviou um célebre SMS a Miguel a solicitar que nomeassem “alguém de jeito” para o cargo de fiscalizador das secretas) e Nuno Vasconcellos da Ongoing, entre outros.

O segundo mistério: a empresa Gaianima (onde Marco conheceu a sua mulher que viria a colocar em Cascais quando veio para Lisboa em 2011), empresa criada para gerir eventos de “animação”, foi extinta em 2015 após ilegalidades de gestão detetadas por uma auditoria externa, apresentando um passivo de 14 Milhões de Euros! Foi alvo de buscas e de inquérito da PGR, mas até agora… Nada. Nem arguidos, nem detenções, nem suspeitos, nem notícias na comunicação social, exceptuando as das diligências esporádicas que vão acontecendo. O mais provável é que o escândalo seja abafado por via de manobras dilatórias que conduzam à prescrição dos crimes.

Em 2004, Marco António criou uma ampla rede de pressão a Santana e acabou por integrar o governo como secretário de estado da Segurança Social, com a anuência desse grande paladino da moral e bons costumes Fernando Negrão, o ministro. Dividiu com “Big Mac” o “acompanhamento” das IPSS: Marco seguia as instituições a norte de Coimbra e Negrão acompanhava as do sul. Assim, Marco António reforçou a sua influência na região através das instituições dependentes da Segurança Social.

Passos convidou-o para retomar o “seu” cargo e em 2013 “deu-lhe” finalmente o partido para segurar o aparelho, coordenar a Comissão Política e ser o porta-voz para a trolha com a oposição. Tinha 47 anos e finalmente alcançava o seu sonho de menino: passou a ser o operacional da máquina laranja.

A ascensão de Marco ao cargo partidário de maior importância não foi pacífico. Efetivamente, traíra Passos por duas vezes, na disputa interna de 2008 que viria a coroar Santana e na de 2009 que Manuela Ferreira Leite venceu. No congresso de Guimarães, Marco António desertou da barricada e deixou as tropas de Passos ainda mais desguarnecidas.

Em 2010, Passos venceu tanto em Gaia (80%), como no Distrito do Porto (65%), ainda por cima contra dois portistas, Paulo Rangel e Aguiar-Branco. Marco demonstrou todo o seu pragmatismo e influência no aparelho regional.

Duas traições não foram suficientes para Passos Coelho não perdoar o seu atual homem de mão. Em matéria de caciques e assaltos ao poder, lá diz o ditado: Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão!

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